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Isso não é futebol, é caso de polícia

A responsabilidade de uns é consequência da impunidade de outros

Por Luiz Soares

Uma frase da blogueira e dissidente cubana Yoani Sánchez, publicada em matéria de hoje (22) no jornal O Estado de S. Paulo, pode ser simplesmente replicada nas recentes discussões sobre a trágica morte do adolescente Kevin Beltrán, de 14 anos, na última quarta-feira, em partida realizada em Oruro, na Bolívia, entre Corinthians e San José, pela primeira rodada do grupo 5 da Libertadores 2013. Ao falar das manifestações e protestos de pessoas ligadas a movimentos esquerdistas, realizados no Brasil por onde a blogueira passa, Yoani disse: “Acredito que todos têm o direito de protestar, a favor ou contra alguma coisa ou alguém, inclusive com relação a mim. Mas, quando se ultrapassa o limite da liberdade de expressão, do protesto, para a violência verbal e até para a violência física, isso não é democracia, mas sim fanatismo”. Não querendo misturar as coisas, mas independente da opinião de cada um sobre a blogueira e essa terrível morte em um campo de futebol, reescro a frase para: “isso não é futebol, mas sim caso de polícia”. Mas, de quem é a culpa, quais são as punições cabíveis?

Torcedores que permanecem presos na Bolívia, suspeitos de terem lançado o morteiro contra torcida adversária (Foto: MeioNorte)

Complicado definir, mas é sim caso de polícia. Pois, o fato do garoto morrer dentro de um estádio de futebol, atingido por um sinalizador é algo absurdo por diversos motivos.

Primeiramente, porque UMA PESSOA MORREU. Em segundo lugar, mesmo que alguns defendam, que não se trata de fanatismo, uma vez que os corintianos não fizeram o fato de propósito, mas ao entrar com esse material no estádio, assumiram o risco.

Em segundo lugar, polícia, mandante do jogo e até a chefe do futebol Conmebol também assumiram seu risco, uma vez que a polícia não fiscalizou a entrada desses torcedores com tais materiais – se bem que isso não é diferente no Brasil e o clube mandante e a Conmebol, por possibilitar um jogo em um estádio com aquelas condições – coincidência ou não, outro fato que não é diferente no Brasil.

Isso lembra outro episódio recente, a também tragédia de Santa Maria, em que o culpado apontado foi o dono da Boate Kiss pelas imprudências ou negligências de sua casa noturna. Mas, prefeitura e corpo de bombeiros também tinha lá suas culpas.

No caso futebolístico, a punição foi parecida. O time paulista, a partir de agora terá todos os seus jogos da Libertadores 2013 – inclusive na fase de mata a mata sem sua torcida, seja como mandante ou visitante. Esta é a primeira punição do recém-criado tribunal da Conmebol – após os problemas na final da Copa Sulamericana 2012, que fiscalizará problemas extra campo em partidas sob responsabilidade dessa Confederação. O Corinthians ainda tem três dias para recorrer da decisão.

Se a decisão for mantida, será uma grande interferência nos planos do atual campeão da competição. Sua torcida, grande aliada do clube e participativa, estará de fora. A renda cairá bastante e os jogos não terão aquele clima de sempre.

Isso é ruim? Sim. Uma torcida não assiste os jogos de seu time, um time perde dinheiro, a TV perde o brio do espetáculo. Mas, nada disso se compara a tristeza de se perder um filho.